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Pintura Democrática

March 4, 2020

 

Esta exposição mostra obras de uma colecção que têm a liga-las a vontade do colecionador e a vida a que a sua vontade foi dando forma e figura. Essa vontade e essa vida foram-se fazendo de escolhas, atitudes, desejos e gostos. E ainda de inquietações, obsessões, avaliações, investimentos.

 

E esta é também a colecção de um tempo, embora as suas obras continuem a ser do nosso tempo - e dos tempos que ao nosso se sucederão. Foi nas décadas de 70 e 80 do século passado que a colecção se formou, mas a maioria dos artistas nela representados são de um tempo mais largo,  que começou muito antes, e  nas suas vidas-obras houve um sismógrafo que nos conta os abalos e as mudanças políticas e culturais de uma época e de um lugar que surpreendeu o mundo com uma revolução democrática, depois de ter vivido longamente sob uma ditadura.

 

Muitos destes artistas participaram activamente nas mudanças. Alguns foram mesmo delas precursores, arautos e militantes de utopias que se tornaram distopias: do comunismo à desilusão dele, da paixão revolucionária à racionalidade reformista, da democracia à normalidade dela.

Viajamos nesta exposição e os olhos são a bússola que nos dá a medida certa da nossa pergunta à resposta de cada obra. Estes pintores e estas pinturas levam-nos ao encontro do que fomos e do que somos na afirmação ou na negação que disso fazemos. 

 

Passam, nestas obras, a verdade do corpo que pinta, a audácia do gesto que rompe, a certeza da mão que avança, como no amor e no ódio. Na poética desta exposição, há as alucinações de uma época que inventou o que foi preciso para se inventar a si-mesma como outra.

 

Muitos destes artistas andaram de cá dentro para lá fora e de lá fora para cá dentro, moveram montanhas e empurraram mares. Com frequência, eles recusavam-se a dizer o que disse Fernando Pessoa - Álvaro de Campos: “ Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta/E cantou a cantiga do infinito numa capoeira/ E ouviu a voz de Deus num poço tapado”.

 

Cada obra destas é um “Cântico do país emerso” (Natália Correia), uma vitória e uma vingança contra o “ País que tu chamaste e não responde” (Sophia de Mello Breyner Andresen), uma voz que exclama ” Nem pátria minha, porque eu não mereço/ A pouca sorte de ter nascido nela”.

Cada obra é uma procura de oxigénio. E é também um túnel de passagem de uma vida a outra vida, de um mundo a outro mundo. Nestas formas e nestas cores firmaram-se vontades de pedra.

Nesta exposição, as obras foram postas umas com as outras, num dispositivo poético.

Dispositivo, porque, como mostrou Giorgio Agamben, ele forma um conjunto heterogéneo de discursos (verbais e não verbais), leis, lógicas, lugares, com uma função estratégica e em resultado de relações de saber atravessadas por relações de poder (o dos curadores, por exemplo). 

 

Poético, porque as suas proximidades e distâncias foram obtidas por cálculos formais e simbólicos.  Porque os seus lugares no espaço que as situa foram encontrados por cabala visual, assim os surrealistas falavam da cabala fonética. O acto livre que aqui as dispõe corresponde ao acto livre com que foram criadas e colecionadas.

No tempo desta colecção, colecionar pintura era colecionar a liberdade. Porque, então, a política, a cultura, a literatura e a arte seguravam o fio da democracia no labirinto do mundo. Comprava-se um quadro e esse quadro trazia com ele o testemunho da “liberdade livre” de que falava Rimbaud.

O colecionador desta colecção tem um nome: Manuel Pedroso de Lima. É advogado e lutou contra a ditadura. O seu pensamento politico-cultural descende do humanismo iluminista, segundo o qual o homem é tanto mais livre quanto mais esclarecido e mais culto for. E ser culto significa fazer do culto da arte uma proximidade, um conhecimento e um quotidiano, tendo-a em casa.

O nome de Manuel Pedroso de Lima não pode ser dito sem que se diga também o nome de sua mulher: Luísa. Esta colecção foi feita com a vontade cúmplice dos dois e esta exposição é um tributo dele a ela.

 

Os autores das obras que aqui se mostram são artistas tão diferentes como elas. Mas têm em comum uma vontade de afirmação da liberdade: primeiro, num país sem ela; depois, num país que a encontrou para continuar a procura-la. A liberdade de cada um destes artistas era a liberdade com que cada um deles inventava a liberdade – a sua e a de todos. E as vozes verbais dos escritores que a estas vozes visuais se juntam, nesta exposição, dão a esse diálogo, feito de acordes e desacordos, o som de um tempo tão sonoro.

As obras que aqui se apresentam foram quase todas compradas na Galeria 111, de Manuel de Brito e Arlete Silva, situada no Campo Grande, perto da casa de Mário Soares ( e aqui o caso não é um acaso). Ao olharmos a colecção de Manuel Pedroso Lima, vemos o trabalho de uma galeria. E vemos como estes artistas e as suas obras fundam o cânone de um tempo e de uma ideia do mundo. A esse cânone podemos chamar «pintura democrática» - e a palavra «democrática» permite mesmo que a consideremos a mais...

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